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Como a rastreabilidade de transferências em cripto funciona

Paulo de Matos Junior, empresário do segmento financeiro, nas áreas de câmbio e intermediação de criptoativos, analisa um dos pontos menos conhecidos do combate a fraudes no setor: a rastreabilidade das transferências de criptoativos entre prestadoras. Em linhas gerais, trata-se da exigência de que as informações de quem envia e de quem recebe acompanhem a operação, de modo que seja possível identificar a origem e o destino dos recursos. O mecanismo, conhecido no mercado internacional como travel rule, nasceu de uma recomendação do Gafi, organismo de combate à lavagem de dinheiro, e vem sendo adotado por diversos países.

Qual é o problema que a rastreabilidade resolve?

Rapidez, funcionamento ininterrupto e alcance internacional beneficiam o usuário comum, mas também atraem quem quer ocultar a origem de recursos ilícitos. Sem informação sobre remetente e destinatário, uma prestadora que recebe um depósito não sabe de quem ele veio, e o dinheiro pode passar por várias carteiras até desaparecer do radar.

Para Paulo de Matos Junior, o ganho da rastreabilidade está em encurtar o caminho entre uma operação suspeita e quem a realizou. Com remetente e destinatário identificados, a prestadora consegue aplicar as mesmas verificações que usa em depósitos e saques tradicionais, em vez de tratar a transferência como uma caixa preta cujo conteúdo ninguém consegue explicar.

As informações que acompanham a operação

Na prática, a prestadora de origem reúne os dados do remetente, como nome e identificação, e os do destinatário, e os transmite à prestadora de destino junto com a transferência. A receptora confere se as informações são compatíveis com o cadastro do seu cliente e, em caso de divergência, pode reter a operação para análise antes de liberar os valores.

O procedimento depende, portanto, de um cadastro de clientes bem feito em ambos os lados, pois dados incorretos na origem comprometem a verificação no destino, ponto que, na avaliação de Paulo de Matos Junior, explica por que empresas com controles internos frágeis têm mais dificuldade de operar com outras prestadoras.

Carteiras próprias e golpes com criptoativos

Nem toda transferência ocorre entre duas prestadoras. Muitos clientes enviam criptoativos para carteiras que administram sozinhos, sem intermediário. Nesses casos, a prestadora não tem como identificar o destinatário por meio de outra empresa e, por isso, adota verificações adicionais, como confirmar que a carteira pertence ao próprio cliente antes de liberar valores mais altos.

Paulo de Matos Junior
Paulo de Matos Junior

Os golpes costumam explorar essa brecha, convencendo a vítima a enviar recursos a uma carteira controlada por criminosos. Conforme ressalta Paulo de Matos Junior, a combinação de alertas de comportamento e verificação de destino reduz esse risco, ainda que não o elimine, e reforça a necessidade de o cliente conferir o endereço antes de confirmar qualquer envio.

O que muda na prática para quem transfere?

Para o usuário, a mudança mais visível é a solicitação de informações adicionais em algumas transferências, como a confirmação do titular da carteira de destino ou a finalidade da operação. Pode haver também prazos maiores em casos que exigem análise, principalmente quando o valor é alto ou o destino é novo. Manter o cadastro atualizado e usar sempre as mesmas carteiras de destino reduz a frequência desses pedidos e torna a rotina mais previsível.

O custo de tempo é compensado pela proteção: transferências identificadas deixam rastro, o que facilita recuperar recursos em caso de fraude e dificulta que criminosos usem prestadoras autorizadas como ponte. Em disputas, por exemplo, o registro de origem e destino ajuda a demonstrar o caminho percorrido pelo dinheiro e a embasar pedidos de bloqueio. À medida que mais empresas adotam o procedimento, a tendência é que ele deixe de ser percebido como obstáculo e passe a ser parte da rotina de quem opera com criptoativos.

 

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