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Por que a mandioca segue essencial para a mesa e a renda do campo brasileiro?

No diagnóstico de Alfredo Moreira Filho, empresário cuja trajetória começou na roça em Igrapiúna, no Baixo Sul da Bahia, a mandioca é uma das culturas que melhor traduzem a relação entre tradição alimentar e economia rural no Brasil. Presente em praticamente todas as regiões do país, a raiz sustenta milhares de famílias e abastece desde a farinha da mesa cotidiana até indústrias de grande porte.

Apesar dessa importância, a mandiocultura passa por um momento de ajuste, com custos em alta e mudanças nas exigências do mercado. Entenda, ao longo deste artigo, de onde vem essa cultura, qual é seu peso na produção nacional e quais desafios estão no horizonte.

Uma raiz de origem amazônica

A mandioca foi domesticada por povos indígenas na Amazônia há milhares de anos e, muito antes da chegada dos europeus, já era a base da alimentação de grande parte das populações que viviam no território brasileiro. Os indígenas desenvolveram técnicas para retirar o ácido cianídrico presente em algumas variedades e transformar a raiz em farinha, beiju e outros alimentos.

Esse conhecimento foi incorporado pelos colonizadores e se espalhou por todo o país. No Baixo Sul baiano, por exemplo, a economia de povoados como Ituberá se organizou, em seus primeiros séculos, em torno do cultivo da mandioca. As casas de farinha, espaços coletivos onde a raiz é ralada, prensada e torrada, tornaram-se parte da paisagem rural e da cultura de muitas comunidades. Como observa Alfredo Moreira, poucas culturas carregam uma herança tão longa e tão presente no cotidiano brasileiro.

Os números da produção

O Brasil é o quarto maior produtor mundial de mandioca, atrás da Nigéria e de outros países tropicais. Segundo os dados mais recentes do IBGE, a produção nacional chegou a 19,8 milhões de toneladas no ano passado, alta de 3,9%. Para este ano, as estimativas preliminares apontam cerca de 20 milhões de toneladas, com leve recuo, em uma área de aproximadamente 1,26 milhão de hectares e produtividade média de 15,7 toneladas por hectare.

O Pará lidera a produção nacional, com cerca de 4,7 milhões de toneladas por ano, das quais 93% vêm da agricultura familiar. O Paraná aparece em segundo lugar, com previsão de 4,4 milhões de toneladas, e concentra o principal polo industrial do país, com grande número de fecularias e farinheiras. Segundo esclarece Alfredo Moreira Filho, esses dois estados representam modelos bem diferentes de uma mesma cultura.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Dois mercados: a mesa e a indústria

Na maior parte do Norte e do Nordeste, a mandioca é cultivada por pequenos produtores e destinada principalmente à fabricação de farinha e outros alimentos de consumo direto. Nesse modelo, a cultura garante segurança alimentar e renda para famílias que dependem de uma planta resistente, capaz de crescer em solos pobres e suportar períodos de seca.

No Centro-Sul, especialmente no Paraná, em Mato Grosso do Sul e em São Paulo, a raiz abastece indústrias de fécula, um tipo de amido usado na fabricação de alimentos, papel, tecidos e outros produtos. Ali, a produção é mais mecanizada e a produtividade por hectare é maior. Na ponderação de Alfredo Moreira, essa convivência entre um modelo familiar e outro industrial é uma das características mais interessantes da mandiocultura brasileira.

Custos, formalização e pesquisa

Apesar da relevância, a rentabilidade da cultura vem sendo pressionada pelo aumento dos custos de produção nos últimos anos. Depois de dois anos de forte expansão da área plantada, o setor entra em uma fase de acomodação, com expectativa de preços mais estáveis. Ao mesmo tempo, um número crescente de indústrias passa a exigir que a colheita seja feita com mão de obra formalizada, o que eleva os custos no campo.

A pesquisa agrícola tem papel importante para enfrentar esse cenário. Instituições como a Embrapa Mandioca e Fruticultura, sediada em Cruz das Almas, na Bahia, e o IDR-Paraná desenvolvem cultivares mais produtivas e resistentes a doenças. Com base na leitura de Alfredo Moreira Filho, o futuro da mandioca dependerá de conciliar tradição, eficiência e organização dos produtores, para que a cultura continue gerando renda sem perder suas raízes.

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